top of page

SANTOS E BEATOS

A Igreja Maronita foi marcada, ao longo dos séculos, pela oração, pela ascese e, em diferentes períodos, pela perseguição e pelo martírio. A própria tradição maronita conserva a memória de homens e mulheres que viveram de modo eminente as virtudes cristãs e testemunharam sua fidelidade a Jesus Cristo, alguns deles até a entrega da própria vida. A santidade de suas vidas, reconhecida pela Igreja ao proclamá-los santos e beatos, ocupa lugar singular na tradição maronita e permanece como testemunho da vocação cristã à santidade.

 

As páginas seguintes apresentam a vida dos santos e beatos maronitas, situando-os em seu tempo e lugar e destacando os aspectos essenciais de sua trajetória, de sua missão e de sua espiritualidade.

​

São Charbel Maklouf

São Charbel Maklouf, nascido dia 8 de maio de 1828, em Beqahkafra, aldeia montanhosa, a 1600 metros de altitude no norte do Líbano, situada nas proximidades dos cedros milenares e de Becharre, cidade natal de Gibran. Era o quinto filho do casal Antoun Zarour Makhlouf e Brígida Alchidiac, foi batizado sob o nome de Youssef. Seu pai, requisitado pelo exército otomano para trabalhos forçados, não tardou para morrer, quando Youssef tinha ainda três anos. Este cresceu em um ambiente familiar profundamente religioso.

 

Órfão de pai, o pequeno Youssef frequentava, em companhia de seus colegas, a escola paroquial de sua aldeia. Desde a sua primeira infância manifestou uma tendência muito pronunciada para o isolamento e a devoção. Abandonava seus camaradas e retirava-se para rezar numa gruta que foi denominada, a princípio ironicamente, a gruta do Santo. Já adolescente rezava muito e pedia à Santíssima Virgem que o ajudasse para se tornar monge como seus dois tios maternos.

​

Em 1851, numa madrugada, sem avisar ninguém, nem se despediu de sua mãe, o jovem Youssef, com 23 anos de idade, se apresentou no mosteiro de Nossa Senhora de Mayfouk da Ordem Libanesa Maronita. Fez seu primeiro ano de noviciado neste mosteiro. Escolheu por nome religioso CHARBEL, em honra a São Charbel martirizado em 107 da era cristã. Seu segundo ano de noviciado aconteceu no mosteiro de São Marun de Annaya ( Montanha de Jbeil).

 

Em 1853 e aos 25 anos de idade ele fez a sua profissão monástica, ou seja , os votos solenes de obediência, castidade e pobreza. No mesmo ano foi enviado ao mosteiro de São Cipriano em Kfifan para completar seus estudos. Terminado o curso de filosofia e teologia, Charbel foi ordenado sacerdote a 23 de julho de 1859, em Bkerke, sede patriarcal maronita. Voltou, em seguida, ao mosteiro de Annaya, onde permaneceu 16 anos ,vivendo em comunidade, antes de se retirar-se na ermida do mosteiro , dedicada a São Pedro e São Paulo .

​

No mosteiro praticou todas as virtudes cristãs humanas e monásticas. Na realidade, seus 16 anos de vida no mosteiro foram como uma introdução aos 23 anos de eremita, que são o ponto culminante de sua existência. Os testemunhos recolhidos mostram um São Charbel obediente com uma obediência quase lendária. Sua castidade era verdadeiramente angélica. Em sua pobreza alegre imitou os maiores santos da Igreja, pois sabia perfeitamente que ao despojar-se de tudo neste mundo era imensamente rico no Senhor. São Charbel foi sempre um homem de oração; permanecia longas horas ajoelhado em frente ao Santíssimo Sacramento. Dividia seus dias entre os trabalhos braçais nas propriedades do convento e as preces e meditações. Em resumo, suas orações incessantes, seus jejuns prolongados, suas mortificações e sua união com Deus fizeram dele um anjo com forma humana. Perdia-se em Deus como um rio se perde no mar.

 

No dia 16 de dezembro de 1898, o eremita Padre Charbel celebrava como de costume a Santa Missa na capela da ermida quando de repente foi atacado de paralisia, no momento exato da Grande Elevação. A agonia durou 8 dias, após 23 anos de vida de eremita exemplar, São Charbel morreu no dia 24 de dezembro de 1898 na véspera de Natal, para nascer de novo no céu.

 

Após a morte, bem como durante a vida, padre Charbel foi considerado um santo. No dia do seu sepultamento, o superior do convento de São Marun de Annaya, Padre Tanios Almechemchany, anotou no diário do mosteiro o seguinte:  Hoje, 24 de dezembro de 1898, faleceu na misericórdia do Senhor o Padre Charbel de Biqahkafra, eremita. Recebeu os últimos sacramentos e morreu aos 70 anos de idade. Foi sepultado no cemitério da comunidade. O que ele realizará após a morte, dispensa maiores comentários sobre a santidade de sua vida.

 

O corpo de São Charbel permaneceu intacto durante muitos anos após sua morte e inclusive transpirava. Esse fenômeno de conservação e de transpiração do corpo, desafiando as leis da natureza, fascinou os médicos, os homens da ciência. Que um cadáver se conserve não é um fenômeno único, porém que os restos mortais se conservem flexíveis, tenros, transpirando incessantemente é um caso extraordinário e único no gênero. Esse foi o caso de nosso santo. Muitos milagres aconteceram com pessoas de várias nacionalidades e religiões que rezaram sobre o túmulo deste eremita.

 

O Padre Charbel foi beatificado no dia 5 de dezembro de 1965 pelo Papa Paulo VI. No dia 9 de outubro de 1977 , o mesmo Papa o canonizou, declarando-o santo do Líbano, santo para a Igreja Universal. Celebramos sua festa no terceiro Domingo de Julho. Mas no Brasil, na Argentina e em outros países, sua festa coincide com o dia de sua canonização, 9 de outubro.

​

São Charbel Maklouf.png

Os 350 mártires, monges maronitas

Os 350 mártires, monges maronitas, foram martirizados na Síria no ano 517, por aqueles cristãos que não admitiam o Concílio de Calcedônia . Celebramos sua festa no dia 31 de julho.

Os 350 mártires.png

Santos Irmãos Massabki - Mártires

Francisco, Abdulmoti e Rafael, três mártires da família maronita Massabki chamados mártires de Damasco, porque foram martirizados em Damasco junto com 8 franciscanos, no dia 10 de julho de 1860. No dia 10 de outubro de 1926 foram beatificados. Comemoramos sua festa no mesmo dia que seu martírio, 10 de julho.

Francisco, Abdulmoti e Rafael, .png

São Marun

A primeira fonte de informação que diz respeito a São Maron, é uma carta que São João Chrisóstomo mandou em 405, de seu exílio de Cucusa, na Armênia, a Marun, sacerdote eremita. São João Chrisóstomo pede orações a São Marun,  e lamenta porque não pode visitá-lo pessoalmente. Esta carta é um testemunho autêntico de um contemporâneo que conheceu pessoalmente São Marun, e apreciou muito a sua piedade.

 

A segunda fonte de informação apareceu uns vinte anos mais tarde. É a famosa obra História Religiosa, do Bispo, historiador e teólogo, Theodoreto de Cyr (Quroch), que deu mais informações sobre a vida do eremita São Maron e de sua influência espiritual sobre seus discípulos e sobre o povo na região norte da Síria.

 

Segundo o Bispo de Cyr ( 393-452), na segunda metade do século IV e nos princípios do século V, sobre uma montanha situada na região da Apaméia, vivia um santo anacoreta chamado Maron. Retirou-se naquela montanha, perto de um templo pagão que ele próprio havia transformado em igreja. Dedicava-se à oração e à penitência. Vivia dia e noite ao ar livre. Poucas vezes , quando o frio ou o calor chegavam ao extremo, ele se refugiava sob uma tenda de pele.

 

Theodoreto disse também que São Marun, de origem antioquena, foi dotado de muita sabedoria que fez dele grande diretor de almas. A austeridade de sua vida e o dom dos milagres do qual foi favorecido, fizeram dele um dos grandes expoentes da fé católica daquela região. Deus sendo rico e generoso para com os seus santos, o gratificou com o dom de curar as doenças. Sua fama espalhou-se por toda a região. As multidões acorriam a ele. Com efeito, a febre parava sob o rocio de sua bênção , os demônios fugiam, os enfermos recuperavam a saúde pela virtude de um único remédio: a oração do Santo. Porque os médicos prescrevem um remédio para cada doença, mas a prece dos amigos de Deus mostra-se como o remédio que cura todas as doenças.

 

Contudo, Marun não curava somente as doenças do corpo, ele curava igualmente as doenças da alma. Libertava uns da avareza, outros do ódio, ensinava a uns a lei da justiça e acordava outros do sono da negligência.

 

O mesmo historiador chama São Marun: O Grande, O Sublime, O Divino. Por suas orações e pregações ele converteu muitas pessoas da cidade de Cyr (Quroch) e de toda a região norte da Síria, ao Cristianismo e se tornou um exemplo a ser seguido. Ele foi considerado um dos fundadores da vida monástica no Oriente. Numerosos foram os discípulos, homens e mulheres que, seguindo o exemplo deste eremita e querendo imitá-lo, transformaram as cavernas, as grutas, os morros em ermidas. Todos esperavam a visita do Santo para escutarem seus sermões e receberem dele as orientações necessárias para a vida ascética e mística. Assim, podemos entender a conclusão entusiasmada de Theodoreto, contente de ver os frutos da piedade crescendo muito, nos jardins de sua diocese: “Em suma, o ensino do Santo fez crescer muitas plantas para a sabedoria celeste. Marun cultivava para Deus este jardim que floresce em todas as regiões de Cyr.”

 

O famoso historiador termina a biografia de São Marun falando de sua morte que ocorreu perto do ano 410, depois de uma breve doença mostrando no mesmo momento a fraqueza da natureza e a sua força espiritual. O desejo de conseguir seus restos mortais levou a uma forte disputa entre os habitantes das cidades vizinhas. Porém, os habitantes da maior cidade da região, chegaram em grande número, e levaram esse rico tesouro. Mais tarde, construíram sobre seu túmulo, uma grande Igreja.

São Marun.png

São Naamtallah Kassab

São Naamtallah Kassab, de Hardin, nasceu em 1808, na aldeia de Hardin, no Norte da Montanha Libanesa, numa família profundamente cristã maronita. No batismo recebeu o nome de Youssef. Em 1828, ele entrou num mosteiro da Ordem Libanesa Maronita e tomou o nome de Naamtallah que significa graça de Deus. Recebeu o hábito monacal e fez profissão solene no dia 14 de novembro de 1835. Escolhido diretor dos seminaristas da Ordem, e professor de Teologia moral, foi nomeado três vezes Assistente Geral da Ordem. Ele cumpriu muitas atividades missionárias e apostólicas. Cumpriu os votos religiosos de maneira perfeita, com Fé, humildade e abnegação.

 

Morreu no dia 14 de dezembro de 1858. Foi beatificado no dia 10 de maio de 1998, pelo papa João Paulo II, e foi canonizado no dia 16 de maio de 2004, pelo mesmo Papa. A sua festa litúrgica celebra-se no dia 14 de dezembro, data de seu falecimento.

São Naamtallah Kassab.png

Santa Rafka Elrayes 

Santa Rafka Elrayes nasceu em 28 de junho de 1832, na pequena cidade de Himlaya, a 30 quilômetros de Beirute, numa família maronita. Aos sete anos, perdeu a sua mãe, o que deixou nela um grande vazio. Ainda adolescente não hesitou em se tornar empregada doméstica para ajudar a sua família. Aos 14 anos de idade começou a sentir a vocação para a vida religiosa. Aos 21 anos abraçou a vida religiosa no Convento de Mariamat, em Bikfaya. De 1856 até 1871, desempenhou-se como professora e educadora, sendo bem querida por seus alunos e solicitada pelas famílias que depositavam nela toda a sua confiança.

 

No ano 1860, Rafqa viveu as sangrentas matanças dos Cristãos na Montanha Libanesa. Isto foi para ela uma cruel experiência dos sofrimentos humanos.

 

Em 1871, foi dissolvido o Instituto Religioso Mariamat. Rafqa (Rebeca) entrou logo na Ordem Libanesa Maronita feminina, no mosteiro de Mar Semaan Elqarn. Seu grande ideal era assumir com Jesus Cristo todas as etapas do Calvário. Um domingo do Rosário (1º domingo do mês) de 1885, Rafqa, inspirada, elevou a Deus essa oração: Por que meu Deus não me visitas com alguma enfermidade! Por acaso me has abandonado!?

 

Deus aceitou essa oblação de amor incondicional que Rafqa fazia de sua saúde. Pouco tempo depois, sentiu violentas dores de cabeça e nos olhos. Uma operação do olho direito foi considerada necessária. A cirurgia praticada por uma médico inexperiente, provocou a perda completa do olho direito e a infecção do olho esquerdo que também rapidamente se perdeu. A partir daí, Rafqa passou por provações acima das forças humanas. Ficou cega e com os ossos desarticulados. Era transportada para a igreja, envolta num lençol. Seu ardente desejo de participar nos sofrimentos do Salvador se realizou, e ela conseguiu transformar suas contínuas provas em uma alegria angelical, manifestando um sorriso permanente, enquanto seu corpo, débil e enfraquecido, se apagava lentamente, oferecendo assim, seus sofrimentos em comunhão com Jesus pela redenção da humanidade.

 

Em 1897, foi transferida para o mosteiro de São José de Jrabta, na região de Batrun, onde ficou paralítica, cravada em seu leito, enquanto balbuciava sem cessar: Em comunhão com vosso sofrimento, ô Jesus. Assim foi a vida da irmã Rafqa: desde a infância até a morte, um contínuo martírio, carregando a Cruz de Cristo com paciência, alegria e entrega total à vontade de Deus.

 

Em 23 de março de 1914, Rafqa entregou sua alma a Deus dizendo : Jesus, Maria, José, lhes dou meu coração e meu espírito, tomem posse de minha alma. Ela se apagou no leito como uma pedra imóvel, no mesmo momento altar e holocausto. A vida crucificada de Rafca nos revela o segredo do sofrimento redentor que provoca em nós loucuras de generosidade e nos situa sempre mais perto de Deus e do homem.

​

A irmã Rafqa foi beatificada em 17 de novembro de 1985, pelo Papa João Paulo II, e canonizada em 10 de agosto do ano 2001, pelo mesmo Papa. A sua festa litúrgica celebra-se no dia 23 de março, dia de seu falecimento.

Santa Rafka Elrayes .png

Beato Estêvão Douayhy

Patriarch Estephan Douaihy / Douaihi, 1630–1704

 

O Beato Patriarca Estevão Edouairre é uma das figuras mais luminosas da história da Igreja Maronita. Patriarca, reformador, historiador, místico e pastor incansável, ele guiou o povo maronita em tempos difíceis, consolidou a identidade espiritual da Igreja e deixou uma herança doutrinal e histórica de valor incalculável. Sua beatificação, celebrada no ano de 2025, reconhece solenemente a sua santidade e confirma sua importância para todo o patrimônio espiritual do Líbano.

​

Nascimento​

Nascido em 2 de agosto de 1630 na cidade de Ehden, no norte do Líbano, Estevão Edouairre cresceu em uma família profundamente enraizada na fé maronita. Desde muito jovem demonstrou inteligência, disciplina espiritual e amor pelos estudos. Aos 16 anos ingressou no convento maronita de São João-Marduque, iniciando seu caminho monástico e intelectual.

​

Formação e Vida Monástica​

Com grande talento para as línguas, história e teologia, Edouairre foi enviado para Řoma, onde estudou no Colégio Maronita, instituição responsável pela formação de grandes figuras do renascimento intelectual maronita. Tornou-se especialista em liturgia, patrística oriental, história da Igreja e espiritualidade sírio-maronita. Seu conhecimento profundo das tradições orientais marcou toda a sua vida pastoral.

​

Episcopado

Em 1656, foi nomeado Bispo de Nicosia, no Chipre. Ali deu início a reformas pastorais, formação do clero, renovação da catequese e reconstrução da vida eclesial em meio a grandes desafios políticos e sociais. Depois retornou ao Líbano, onde continuou a exercer missão episcopal e acadêmica, tornando-se referência em santidade, disciplina e sabedoria.

​

Patriarca da Igreja Maronita

Em 1670, foi eleito 57º Patriarca Maronita de Antioquia. Seu patriarcado é considerado um dos mais importantes da história maronita.

​

Principais contribuições como Patriarca

  • Reforma profunda do clero, com foco na formação, disciplina, moralidade e vida espiritual.

  • Reorganização dos mosteiros e incentivo à educação monástica.

  • Unificação e preservação da liturgia maronita, valorizando as raízes sírio-antioquenas.

  • Promoção da paz e da estabilidade social durante tempos de conflitos político-tribais no Líbano.

  • Apoio aos pobres e perseguidos, defendendo a dignidade e os direitos da comunidade.

  • Produção de importantes obras históricas, incluindo crônicas que são fontes essenciais sobre a história maronita e libanesa.

​

Obras Escritas

O Patriarca Estevão Edouairre foi também um dos maiores historiadores libaneses. Entre suas obras destacam-se:

​

  • Crônica do Tempo dos Patriarcas;

  • História dos Maronitas;

  • Textos espirituais e pastorais;

​

Registros litúrgicos e disciplinares usados até hoje como referência.

Essas obras preservaram não apenas a história religiosa, mas também cultural e social do Líbano.

​

Vida Espiritual

Renomado por sua humildade, vida de oração intensa e caridade, Edouairre vivia de maneira austera mesmo ocupando o mais alto cargo da Igreja Maronita. Era profundamente dedicado à Eucaristia, à Virgem Maria e aos santos da tradição sírio-maronita.

​

Falecimento

O Patriarca faleceu em 3 de maio de 1704, deixando um legado espiritual e histórico reconhecido por toda a Igreja. Seu túmulo encontra-se no Líbano e é destino de peregrinação de fiéis maronitas.

​

Beatificação

Sua beatificação, celebrada pela Santa Sé e pela Igreja Maronita no dia 2 de agosto de 2025, confirma oficialmente sua vida de santidade heroica. O Beato Edouairre é hoje modelo de:

  • Liderança pastoral;

  • Fidelidade à tradição;

  • Coragem em tempos de perseguição;

  • Sabedoria intelectual;

  • Amor pela Igreja e pelo povo.

​

Espiritualidade e Atualidade

O Beato Patriarca Edouairre permanece como uma importante referência para bispos e sacerdotes, religiosos e religiosas, leigos e estudiosos, bem como para toda a diáspora maronita ao redor do mundo. O seu testemunho de dedicação à Igreja, seu compromisso com a preservação da tradição sírio-maronita e sua expressiva contribuição intelectual e pastoral continuam a inspirar aqueles que se dedicam à missão, à formação e à transmissão do patrimônio espiritual e cultural da Igreja Maronita.

​

Beato Estêvão Douayhy.png

Beato Patriarca Elias El-Huwayek

Patriarch Elias Hoayek / 1843–1931

​

O Beato Patriarca Elias El-Huwayek é uma das figuras mais decisivas da história moderna do Líbano e da Igreja Maronita. Líder espiritual, estadista, defensor do povo libanês durante os anos sombrios da fome e principal arquiteto da criação do Grande Líbano em 1920, ele permanece até hoje como símbolo de coragem, sabedoria, patriotismo e profunda fé.

​

Nascimento

Elias El-Huwayek nasceu em 4 de dezembro de 1843 na aldeia de Helta, próxima a Batroun, em uma família profundamente religiosa e ligada às tradições maronitas. Desde a infância mostrou inclinação para a vida espiritual, disciplina, estudo e liderança. Aos 10 anos ingressou na escola do Mosteiro de São João de Kfarhây, onde iniciou sua formação religiosa.

​

Formação e Vida Eclesiástica

Após seus estudos iniciais no Líbano, foi enviado a Roma, onde prosseguiu sua formação no Colégio Maronita, aprofundando seus conhecimentos em filosofia, teologia, espiritualidade e línguas. Ao retornar ao Líbano, iniciou uma ampla trajetória de serviço à Igreja Maronita, assumindo importantes responsabilidades como professor, formador de seminaristas, secretário do Patriarcado, superior monástico e vigário patriarcal. Ao longo desse percurso, distinguiu-se pela clareza pastoral e pela capacidade administrativa, desempenhando um papel de grande relevância na vida e na organização da Igreja Maronita.

​

Episcopado

Em 1889, foi consagrado Bispo titular de Arca e desempenhou papel essencial na modernização do Patriarcado, na organização das escolas maronitas e na defesa dos cristãos do Oriente. Foi figura-chave na mediação de conflitos locais e na diplomacia entre as comunidades libanesas.

​

Patriarca da Igreja

Maronita Em 19 de dezembro de 1898, Elias El-Huwayek foi eleito 72º Patriarca Maronita de Antioquia. Seu patriarcado é marcado por três pilares fundamentais:

​

1. Renovação da Igreja

  • Fortaleceu a educação católica em escolas e universidades.

  • Modernizou a formação sacerdotal e o trabalho pastoral.

  • Impulsionou congregações religiosas e movimentos de caridade.

  • Fortaleceu as relações com a Santa Sé e com o Papa Pio X e seus sucessores.

​

2. Defesa do Povo Durante a Grande Fome (1915–1918)

Durante a Primeira Guerra Mundial, o Líbano sofreu uma das maiores tragédias da sua história: a fome causada pelo bloqueio otomano, que levou à morte de mais de um terço da população.
 

O Patriarca El-Huwayek:

  • Organizou redes de ajuda humanitária;

  • Vendeu bens da Igreja para comprar trigo;

  • Mobilizou diplomatas e missionários;

  • Abriu mosteiros e escolas para acolher famintos.Por isso é lembrado como “Pai dos Pobres”.

​

3. Criação do Grande Líbano

Após a guerra, o Patriarca liderou a delegação libanesa na Conferência de Paz de Paris (1919–1920).
 

  • Ele defendeu com firmeza:

  • A independência do Líbano;

  • As fronteiras históricas do país;

  • A identidade cristã e plural libanesa.

 

Seu trabalho diplomático resultou na proclamação do Grande Líbano, anunciada em 1º de setembro de 1920.

​

Obras e Iniciativas

  • Fundou em 1899 a Congregação das Irmãs Maronitas da Sagrada Família;   

  • Criou escolas e instituições sociais para órfãos e famílias pobres;

  • Promoveu missões, retiros e renovação espiritual nas paróquias;

  • Reformou o direito eclesiástico maronita;

  • Incentivou a emigração organizada e o cuidado pastoral da diáspora.

​

Vida Espiritual

Homem de grande humildade e fé profunda, dedicava várias horas diárias à oração. Era conhecido pelo seu amor filial à Virgem Maria e pela mansidão no trato com todos.  Mesmo sendo uma das personalidades políticas mais influentes do seu tempo, permanecia profundamente unido a Cristo e ao povo simples.

​

Falecimento

O Patriarca Elias El-Huwayek faleceu em 24 de dezembro de 1931, aos 88 anos, após 33 anos de patriarcado. Está sepultado no Convento de Nossa Senhora de Louaizé.

​

Reconhecimento como Venerável

Em 2019, o Papa Francisco reconheceu oficialmente as virtudes heroicas do Patriarca Elias El-Huwayek, declarando-o Venerável. O processo de beatificação continua avançando, sustentado por seu enorme legado espiritual e nacional.

​

Beatificação

Em 25 de julho de 2026, o Patriarca Elias El-Huwayek foi proclamado Beato durante solene celebração realizada em Dimane, no Líbano. A beatificação, autorizada pelo Papa Leão XIV após o reconhecimento de um milagre atribuído à sua intercessão, constituiu o reconhecimento eclesial de uma vida marcada pela dedicação à Igreja, pela caridade e pelo serviço ao povo libanês.

​

Legado

O legado do Venerável Patriarca Elias El-Huwayek ocupa lugar de destaque na história religiosa, social e política do Líbano. Reconhecido como “Pai do Grande Líbano” e “Patriarca da Caridade”, sua trajetória esteve associada à consolidação da identidade nacional libanesa, ao exercício de uma diplomacia prudente e à dedicação ao ministério pastoral. Sua contribuição ultrapassou o âmbito eclesial, alcançando questões fundamentais para a organização e o desenvolvimento do país. Sua memória permanece como referência para bispos, sacerdotes e religiosos, para as comunidades maronitas no Líbano e na diáspora e para aqueles que atuam em favor da paz, da dignidade humana e do bem comum.

Beato Patriarca Elias El-Huwayek.png

Beato Estevão Nehme

Nascido em 08 de março de 1889 na pequena aldeia montanhesa de Lehfed, encravada no Monte Líbano, o Beato Estevão Nehme, batizado com o nome de Youssef (José) em 15 de março do mesmo ano, era o caçula dos 6 filhos de Estêvão Bou Haykal Nehme e Christina Badawi Hanna Khaled.

 

Órfão de pai aos 14 anos de idade, Youssef, que desde a infância tinha o hábito de rezar ao longo do dia, decidiu ingressar na vida monástica aos 16 anos, adotando o nome de "Estêvão" – o mesmo nome de seu pai e do santo padroeiro de Lehfed, Santo Estêvão.

 

Tendo uma vida de oração e labor de monge trabalhador no mosteiro de São Cipriano e Santa Justina, em Kfifen, o irmão Estêvão repetia para si mesmo a frase "Deus me vê" ("Allah yarānī", em árabe).

 

Forte trabalhador, esse monge das montanhas libanesas desempenhou uma variedade de trabalhos manuais, desde trabalhos nas lavouras até na carpintaria e demarcação de terras do mosteiro.

 

Como solicitava a rotina monástica, ainda de madrugada ele acordava e se dirigia à igreja para as orações. Em seguida, iniciava os trabalhos necessários, interrompendo-os apenas para a oração e para as refeições. No decorrer do dia, o irmão Estêvão fazia diversos atos de caridade com os outros trabalhadores e com os necessitados.

 

Aos 49 anos de idade, após um árduo serviço de demarcação de terras, o irmão Estêvão adoeceu gravemente, e em 30 de agosto de 1938, ele faleceu.

 

Foi enterrado no próprio mosteiro em Kfifen pelos seus irmãos monges. No ano de 1951, por ocasião da morte de outro monge, os irmãos precisaram abrir o túmulo do irmão Estêvão. Foi aí que se depararam com seu corpo incorrupto, mesmo após cerca de 12 anos de seu falecimento.

 

Transferiram seu corpo para outro local no próprio mosteiro, mas desta vez ficou num túmulo de vidro, visível para o povo. Após o reconhecimento do milagre atribuído à sua intercessão, o irmão Estêvão foi beatificado em 27 de junho de 2010, durante o pontificado de Bento XVI. Atualmente sua causa de canonização permanece em andamento, aguardando o reconhecimento de um novo milagre.

 

A vida deste humilde e heróico monge trabalhador é uma benção para toda a Igreja. No cumprimento dos trabalhos ordinários e esperados do dia a dia, colocando-se sob os olhos do Senhor, o irmão Estêvão ensina que a santidade é possível para todos. O cumprimento dos deveres, a vida de oração e a constante memória da real presença de Deus no nosso cotidiano são um caminho seguro para o Paraíso. "Deus me vê" era, para o irmão Estêvão, não apenas uma frase, mas uma realidade.

 

Das distantes montanhas fenícias, um simples monge trabalhador do início do século XX, respondendo ao chamado universal à santidade, foi beatificado no Mosteiro de São Cipriano e Santa Justina, em Kfifen, no Líbano, por delegação do Papa Bento XVI. Beato Irmão Estêvão Nehme, rogai por nós!

Beato Estevão Nehme.png
bottom of page